Reflexões Laudelianas: Sobre a marcha do empoderamento crespo x as pautas do movimento negro.

Por Valéria Martins

Marcha em SP
  A 1ª Marcha dos Cabelos Crespos aconteceu no dia 26 de julho em comemoração ao Dia Internacional da Mulher Negra Latino Americana e Caribenha (25 de julho). No ato esteve presente mulheres negras, homens negros e crianças com objetivo de mostrar a importância da cultura negra e valorização dos cabelos crespos e afro. 

  Depois de SP, a marcha se expandiu para várias outras capitas, e o debate sobre a mesa cresceu. Nos últimos dias eu tenho visto bastante o posicionamento contrário a marcha, e até curti muitas coisas que foram ditas por entender o que essas pessoas estavam falando sobre o assunto, de verdade.

    Só que assim, não da pra desprezar o lado estético, e nem da para trata-lo como se não fosse tão importante para a luta do movimento negro, e principalmente para as mulheres negras (e pasmem, é o que alguns estão fazendo). Dizer que uma marcha do empoderamento crespo é besteira porque temos outras pautas para nos preocuparmos - como se a mulher que participa dessa marcha e que fala sobre cabelo, corpo e beleza negra não se importasse e nem lutasse pelas outras pautas, é no mínimo chato. E é o que a maioria tem feito, estão usando a logica do "se pauta estética, logo, não pauta genocídio do povo negro", por exemplo. E isso não é verdade, inclusive é muito injusto com as mulheres negras.

Retirada do Facebook
   Ao que parece, muitas e muitos tem esquecido o poder que a estética possui para negras e negros, e falando enquanto mulher negra, que é meu local de fala, a estética é uma pauta importantíssima para nós. E outra, por experiência própria posso dizer que a estética é, em alguns casos, o despertar para a luta do movimento negro, pois antes de aceitar meu cabelo crespo, eu não me reconhecia negra em minha totalidade. E assim o é com muitas meninas negras, mesmo que ocupem espaços sociais diferentes. 

        Mesmo a mulher negra e periférica, por não se reconhecer negra, pode acabar não percebendo que são seus irmãos e irmãs que estão sendo mortos por exemplo (há não ser que tenha mesmo uma relação consanguinidade ou próxima), por que ela não os reconhece. O mesmo acontece com outras mulheres negras, que só passam a se enxergar negra depois que aceitam sua estética natural, ou seja, o empoderamento crespo importa. Quando eu me reconheço negra, eu percebo que a luta é bem maior que a estética. Mas muitas irmãs ainda precisam despertar para a negritude (fora dos preconceitos, dos estereótipos, dos padrões de negritude) e quando elas despertarem para isso, vão despertar também para o significado da luta em sua totalidade. Vamos nos atentar para isso também, porque temos irmãs morrendo por que não se aceitam negras, e "morrem" sem nem saber que morreu quando um irmão ou irmã negro/a é assassinado pela PM.

      Sou pela marcha do empoderamento crespos, até porque vejo nela um simbólico "tapa na cara" da sociedade racista e machista, ali estarão reunidas mulheres negras, crespas, que não tem vergonha alguma de dizer que são negras e que assumiram suas raízes crespas. São mulheres negras ocupando as ruas, espaço que sempre foi designado a ela de forma negativa, mas dessa vez para dizer que estamos aqui, e começamos pelo cabelo, mas não vamos ficar nisso. E creiam, é essa a imagem que vai passar e a sensação que eu e várias outras vamos ter é de que vão ter que nos engolir! 
Encontro pré marcha em SSA

      E se o medo é que a marcha pare o trabalho no empoderamento estético, vamos trabalhar para que ela se atente que a luta não acaba aí. É papel nosso também, ao conversar com as meninas que estão chegando agora (e chegam na maioria das vezes por conta da estética) que o feminismo negro é mais do que cabelo, mas tudo bem você "se iniciar" através dela. Se não conseguirmos todas para o lado negro da força, ao menos uma a gente consegue. 

        E o trabalho de formiga vai seguindo! Tem que seguir! 

      Vamos lembrar que o nosso cabelo é politico! E fiquem atentos e atentas, a primeira edição da marcha na capital baiana será realizada no próximo dia 07 de novembro. Para mais informações acesse o grupo do evento no Facebook aqui.

    Antes da marcha foi realizado um encontro prévio que aconteceu na UNEB, e a programação contava com oficinas de turbantes e sarau poético. Veja mais aqui.







Valéria Martins é negra, crespa e secretaria geral do DCE UESC (2014/2015). Tem 21 e compõe o CFLCM. Fará o possível para estar presente na Marcha!

Comentários

  1. Val, gratidão por escrever, sempre é um momento de aprendizado profundo pra mim.

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

Relacionamento abusivo

É pela vida das mulheres: A Luta pela autonomia feminina e legalização do aborto.

Coletivo Feminista Laudelina Campos de Melo