Reflexões Laudelianas: Verdades mascaradas sobre a novela da Globo.

Por Sabrina Venditto


          Hoje me chamou a atenção uma notícia que falava sobre um final alternativo para a novela “Verdades Secretas” que acabou na semana passada na rede Globo, aí eu resolvi desafiar aquela lei que diz: “nunca leia os comentários se quiser se manter emocionalmente saudável” e vejo que muitas mulheres ficaram torcendo pra que a protagonista ficasse com o opressor Alex ao invés do estuprador Gui. Excelente troca, amigas só que não. Fico impressionada com a capacidade que as pessoas tem de banalizar a violência, o estupro, a opressão.
        É claro que por se tratar de uma obra de dramaturgia, por ser ficção não existe nenhum compromisso com a realidade nem a arte tem a obrigação de mostrar só o que é bonito e aceito socialmente, a função social da arte é subverter mesmo. Por isso, assiste quem quer, sou totalmente contra a censura, embora a ética - tão em desuso na nossa liberdade de expressão duramente conquistada - seja absolutamente imprescindível. E sempre há as consequências. 


        Neste caso, as consequências são veladas. Porque mostram comportamentos doentios de forma romantizada e contribuem com a manutenção do sistema de opressão, validando e reafirmando posturas que deveriam ser combatidas ao invés de naturalizadas. E principalmente, o mais grave é o alcance social dessas produções. Infelizmente, ainda precisamos evoluir muito o discernimento necessário para deixar aqueles modelos de comportamento lá na dramaturgia. As novelas no Brasil culturalmente exercem uma influência social monstruosa e é aí que mora o problema.

        A grande maioria das pessoas nem tem percepção de quanto seus comportamentos são influenciados por essa cultura. E o pior é a hipocrisia e o falso moralismo que decorrem da imitação desses padrões e estereótipos. A sociedade brasileira foi despertada pela fúria quando duas senhoras se beijaram na novela das nove na mesma emissora; um relacionamento exemplar de amor, compreensão, parceria. Mas não houve nenhuma indignação pelo estupro da protagonista menor de idade nos primeiros capítulos (no final ela casa com o estuprador, ah, tudo bem né!). Sim, foi estupro! Ele tirou a virgindade dela depois de drogá-la, ela não estava em sã consciência para decidir se queria ou não. 

       Também não houve indignação pelo fato do personagem Alex ser um sociopata, opressor, possessivo e machista (pra dizer o mínimo). Também pode comer a mãe e a filha menor de idade na mesma novela. Sim, porque ele é branco, rico e bonito. Aí a família brasileira romantiza a violência porque tá dentro dos padrões e acha bacana, tá tudo certo.
Não assisti ao famigerado “Cinquenta tons de cinza”, mas ouvi muitas comparações entre o personagem principal e o opressor de Verdades Secretas e fiquei com medo.

         Muito medo do sucesso que esse tipo de homem faz entre as mulheres. E mais medo ainda de como as mulheres estão cegas para a opressão que sofrem. Homens que tolhem nossa capacidade de decisão, que nos fazem acreditar que o único destino possivelmente feliz de uma mulher é se casar, mesmo que seja com um cara que a estuprou. Homens que chamam a mulher de burra, a fazem de escrava, abandonam os filhos e ainda traem continuam sendo socialmente aceitos sem ressalvas. Homens que manipulam, distorcem situações para que nos sintamos culpadas ou inferiores, que detonam nossa autoestima e nosso amor interior apenas pela sensação de poder.

            Queria muito que todas as mulheres pudessem enxergar isso. Tenho cada vez mais certeza da imensidade de luta que ainda precisamos empreender pra que a sociedade entenda que a mulher não pertence ao homem, que eles não te nenhum direito sobre nós apenas por serem homens e que precisamos imediatamente educar nossos filhos pra desconstruir esses padrões. E vamos deixar a ficção no lugar que lhe pertence, pro nosso bem.










Sabrina Venditto é graduanda em direito pela UESC. Compõe o CFLCM.

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